Bem vindos sejam os * Alamanos ou Suábios * Alanos * Anglos * Bretões * Burgúndios ou Borgúndios * Cartagineses * Francos * Frísios * Gauleses * Godos * Hérulos * Hunos * Jutos * Lombardos * Lusitanos * Ostrogodos * Rugios * Saxões * Suevos * Vândalos * Visigodos * Germanos * Celtas
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
E a mosca comeu a aranha (parte 2)

Um belo dia chegou a notícia que a abastada família, recém-chegada à cidade, daria uma festa na fazenda, e os convidados, aos poucos, iam recebendo seus finos convites com um misto de curiosidade e orgulho, já que a fama dos novos moradores se espalhou pelo local feito fogo no palheiro.
Esquecendo por ora a tal festa, em um dia em que chovia muito naquele fim de mundo, estando Roberval e Baltazar no armazém local a comprar suprimentos para a empresa do tio, eis que entra pela porta ninguém menos que Lucinha.
O barulho da sineta da porta de entrada pareceu então uma extensa e bela trilha sonora, daquelas de filme de cinema, para a cena de Lucinha, olhos felinos e o sorriso malicioso de sempre, corpo todo delineado nas suas roupas molhadas, entrando no armazém, meio que sem jeito, sei lá se sem jeito mesmo ou fazendo-se de, exibindo uma beleza que até então nunca se tinha visto naquela cidadezinha perdida no meio do nada.
Roberval, ágil como era com as mulheres, nem bem a viu, correu em se apresentar, com aquele seu jeito de galanteador barato, aprendido e adquirido em anos de puteiros e trato com as mulheres da vida.
Já Baltazar, tímido e sem jeito, fez apenas olhá-la.
Lucinha não se impressionou nem com um nem com outro. Pelo menos não naquele momento. Ou fez que não. Entenda-se as mulheres.
Pensou ela, do alto de seus 23 anos, bem vividos até então, e muito graças a algumas experiências nem imaginadas por seus pais, com homens da sua cidade, que homem é tudo igual, cachorros que sentem cheiro de sexo, ainda mais o dela, carne nova, verdadeiro prêmio para qualquer um deles colecionar.
Se fosse possível ler o pensamento de cada um, diria que Roberval pensou logo em comê-la e que Baltazar viu na bela moça o que vem os navegadores ao aportarem em uma ilha deserta e recém descoberta: o desconhecido, o impensável.
Lucinha fez-se de desentendida. Se bem que aposto, leu a mente de cada um deles da mesma forma que descrevi.
Cumprimentou Roberval discretamente, dando a entender que com ela não seria assim tão fácil a aproximação e andou até o balcão, lentamente, prestando atenção a cada detalhe do lugar.
Um desses detalhes, quase invisível, era Baltazar.
Neste ponto cabe um comentário óbvio: imagino que não seja difícil pensar em um final feliz para esta história, do tipo romance de Roliúde, com direito a reviravoltas mil e o amor brotando milagrosamente entre Lucinha e Baltinha, da maneira improvável à qual nos acostumamos acreditar e que nunca, nunca mesmo, acontece na vida com a qual estamos acostumados a conviver.
Não, amigos sonhadores como eu, Lucinha não viu em Baltazar o amor de sua vida. Até porque mulheres como ela não se apaixonam à primeira vista por coitados como ele. Isso é fato.
Lucinha viu sim em Baltazar o que há muito tempo procurava: um homem indefeso e ingênuo. E viu mais, na verdade: um homem perfeito para realizar o seu sonho de conquista, de ter alguém para fazer dela uma rainha; um ser manipulável, mesmo que para que isso acontecesse de fato, ela tivesse que, tal qual a fêmea aranha, envenenar o macho que lhe dá prazer e longevidade.
Assim, não é de se estranhar que Lucinha se fizesse de desentendida frente aos galanteios de Roberval e se apressasse em entregar pessoalmente um convite para a festa da famíla para Baltinha, com o mesmo sorriso cheio de malícia com o qual havia conseguido tudo o que queria até aquele momento da sua vida. Sim, até aquele momento.
Ao receber o convite, Baltazar, quase que não acreditando no que via e vivia, gaguejou algumas palavras de agradecimento e pode sentir, mesmo que por um instante, aquilo que sempre desejou por toda a sua vida: ser melhor que alguém. No caso, melhor que o odiado primo Roberval.
Mas, quase sempre, mesmo que as pessoas teimem em não acreditar, as coisas não acontencem tal qual elas desejam, e isso irá se comprovar mais uma vez ao final dessa história
(Continua...)
domingo, 5 de setembro de 2010
E a mosca comeu a aranha (parte 1)

Baltazar era uma pessoa de fé. Não dessa fé apregoada pelas religiões, essa fé regada a medo e incerteza. Apesar do nome bíblico – que já o tinha feito aguentar muita gozação na vida – Baltazar acreditava era em si mesmo.
Filho de família pobre, de pai trabalhador, porém beberrão, e de mãe austera e caseira, Baltinha, como era conhecido pelos amigos, nunca tinha feito nada de grandioso na vida. Deixando de lado um domingo de bingo, quando havia conseguido bater a cartela, porém, junto a mais cinco ou seis pessoas, ele nunca havia ganho campeonato, nem jogo de baralho, nem mesmo um par ou ímpar ou joquempô.
Mas mesmo assim, Baltinha seguia acreditando que um dia ganharia tudo o que nunca havia ganho do mundo. Acreditava ele em uma recompensa da vida para quem sempre lutou e acreditou. Não sabia o que era, mas acreditava que viria, um dia.
As coisas não iam muito bem para ele, isso é verdade.
Já com 28 anos, Baltazar havia tido apenas uma namorada, na vida inteira, com quem namorou por 12 anos, sem nunca ter conseguido mais que um papai-mamãe no escuro e o rompimento no dia seguinte, segundo a moça, por vergonha do que tinha feito.
Começou a trabalhar bem cedo, na empresa do tio, irmão de seu pai, um homem esperto para os negócios e cruel feito um capatáz.
Baltazar ouviu mais impropérios e xingamentos do tio do que qualquer palestino já tivesse ouvido de um judeu, ou vice-versa.
Mas ele não se incomodava em nada.
Para ele o tio nada mais era do que uma pessoa amarga, viciado em dinheiro e que vivia infeliz, preso a um casamento com uma mulher bem mais nova e que o traia com meia cidade.
Assim seguia a vida de Baltinha, aos berros do tio, vendo a mãe costurar e o pai beber, sem nada além disso, sem pódio de chegada e muito menos beijo de namorada.
Porém - nunca é tarde - eis que surgem, quase que ao mesmo tempo, duas pessoas, dois personagens em sua vida, que fariam com que o mundo de Baltazar virasse todo ao contrário. Uma delas, a bem da verdade, já existia. Mas não da maneira que irei contar.
A primeira delas, Lucinha.
De família recém chegada à cidade, Lucinha era filha de um empresário e de uma grã-fina da capital.
Uma vez aposentado, o pai de Lucinha decidiu morar no interior e investir no gado.
Assim, comprou uma fazenda, encheu-a de bois e vacas e trouxe toda a família, os três, na verdade, muito a contragosto de sua mulher, pessoa acostumada às festas e badalações da cidade grande.
Lucinha em nada se parecia com a mãe.
Moça de traços finos, pele clara e cabelos longos e de um olhar de felino e sorriso malicioso, Lucinha procurava por alguém. Alguém que, como ela, quisesse dar um basta na vidinha de merda e sair pelo mundo, sem rumo nem prumo.
Pausa em Lucinha, vamos à segunda pessoa. Roberval. O que dizer de Roberval?
Chefe imediato de Baltazar e primo deste. Sobrinho preferido do tio carrasco, tinha direito a todas as regalias do mundo. Ganhava bem, mesmo fazendo pouco, ao contrário de Baltinha, que trabalhava feito camelo e nunca havia ouvido sequer um obrigado.
Não era raro ver Baltinha fazendo o trabalho de Roberval, enquanto este saia com o tio para “procurar novos investimentos”, o que não raro signigicava gastar uma boa grana no puteiro local.
Apesar disso, Roberval não tinha muito apreço por Baltazar. Não, pelo contrário. Sempre que podia, Roberval fazia de tudo para humilhar Baltazar. Chamava-o de incompetente, de pobre, de feio, de infeliz, citando aqui apenas o que deve, por educação, ser escrito.
De Roberval sim, Baltazar tinha raiva sobrando. Mas não demonstrava, nada. Pensava Baltazar que revelar seu sentimento de ódio pelo primo seria como abrir mão do único trunfo que tinha contra ele. E assim, Baltazar só esperava, com toda a fé que tinha em si mesmo, que um dia, sem dizer uma palavra, faria com que Roberval se sentisse o pior dos homens. E mal sabia ele, este dia estava muito próximo.
(continua...)
Assinar:
Comentários (Atom)