terça-feira, 14 de setembro de 2010

E a mosca comeu a aranha (parte 2)


Um belo dia chegou a notícia que a abastada família, recém-chegada à cidade, daria uma festa na fazenda, e os convidados, aos poucos, iam recebendo seus finos convites com um misto de curiosidade e orgulho, já que a fama dos novos moradores se espalhou pelo local feito fogo no palheiro.

Esquecendo por ora a tal festa, em um dia em que chovia muito naquele fim de mundo, estando Roberval e Baltazar no armazém local a comprar suprimentos para a empresa do tio, eis que entra pela porta ninguém menos que Lucinha.

O barulho da sineta da porta de entrada pareceu então uma extensa e bela trilha sonora, daquelas de filme de cinema, para a cena de Lucinha, olhos felinos e o sorriso malicioso de sempre, corpo todo delineado nas suas roupas molhadas, entrando no armazém, meio que sem jeito, sei lá se sem jeito mesmo ou fazendo-se de, exibindo uma beleza que até então nunca se tinha visto naquela cidadezinha perdida no meio do nada.

Roberval, ágil como era com as mulheres, nem bem a viu, correu em se apresentar, com aquele seu jeito de galanteador barato, aprendido e adquirido em anos de puteiros e trato com as mulheres da vida.

Já Baltazar, tímido e sem jeito, fez apenas olhá-la.

Lucinha não se impressionou nem com um nem com outro. Pelo menos não naquele momento. Ou fez que não. Entenda-se as mulheres.

Pensou ela, do alto de seus 23 anos, bem vividos até então, e muito graças a algumas experiências nem imaginadas por seus pais, com homens da sua cidade, que homem é tudo igual, cachorros que sentem cheiro de sexo, ainda mais o dela, carne nova, verdadeiro prêmio para qualquer um deles colecionar.

Se fosse possível ler o pensamento de cada um, diria que Roberval pensou logo em comê-la e que Baltazar viu na bela moça o que vem os navegadores ao aportarem em uma ilha deserta e recém descoberta: o desconhecido, o impensável.

Lucinha fez-se de desentendida. Se bem que aposto, leu a mente de cada um deles da mesma forma que descrevi.

Cumprimentou Roberval discretamente, dando a entender que com ela não seria assim tão fácil a aproximação e andou até o balcão, lentamente, prestando atenção a cada detalhe do lugar.

Um desses detalhes, quase invisível, era Baltazar.

Neste ponto cabe um comentário óbvio: imagino que não seja difícil pensar em um final feliz para esta história, do tipo romance de Roliúde, com direito a reviravoltas mil e o amor brotando milagrosamente entre Lucinha e Baltinha, da maneira improvável à qual nos acostumamos acreditar e que nunca, nunca mesmo, acontece na vida com a qual estamos acostumados a conviver.

Não, amigos sonhadores como eu, Lucinha não viu em Baltazar o amor de sua vida. Até porque mulheres como ela não se apaixonam à primeira vista por coitados como ele. Isso é fato.

Lucinha viu sim em Baltazar o que há muito tempo procurava: um homem indefeso e ingênuo. E viu mais, na verdade: um homem perfeito para realizar o seu sonho de conquista, de ter alguém para fazer dela uma rainha; um ser manipulável, mesmo que para que isso acontecesse de fato, ela tivesse que, tal qual a fêmea aranha, envenenar o macho que lhe dá prazer e longevidade.

Assim, não é de se estranhar que Lucinha se fizesse de desentendida frente aos galanteios de Roberval e se apressasse em entregar pessoalmente um convite para a festa da famíla para Baltinha, com o mesmo sorriso cheio de malícia com o qual havia conseguido tudo o que queria até aquele momento da sua vida. Sim, até aquele momento.

Ao receber o convite, Baltazar, quase que não acreditando no que via e vivia, gaguejou algumas palavras de agradecimento e pode sentir, mesmo que por um instante, aquilo que sempre desejou por toda a sua vida: ser melhor que alguém. No caso, melhor que o odiado primo Roberval.

Mas, quase sempre, mesmo que as pessoas teimem em não acreditar, as coisas não acontencem tal qual elas desejam, e isso irá se comprovar mais uma vez ao final dessa história

(Continua...)

Nenhum comentário: