domingo, 5 de setembro de 2010

E a mosca comeu a aranha (parte 1)


Baltazar era uma pessoa de fé. Não dessa fé apregoada pelas religiões, essa fé regada a medo e incerteza. Apesar do nome bíblico – que já o tinha feito aguentar muita gozação na vida – Baltazar acreditava era em si mesmo.

Filho de família pobre, de pai trabalhador, porém beberrão, e de mãe austera e caseira, Baltinha, como era conhecido pelos amigos, nunca tinha feito nada de grandioso na vida. Deixando de lado um domingo de bingo, quando havia conseguido bater a cartela, porém, junto a mais cinco ou seis pessoas, ele nunca havia ganho campeonato, nem jogo de baralho, nem mesmo um par ou ímpar ou joquempô.

Mas mesmo assim, Baltinha seguia acreditando que um dia ganharia tudo o que nunca havia ganho do mundo. Acreditava ele em uma recompensa da vida para quem sempre lutou e acreditou. Não sabia o que era, mas acreditava que viria, um dia.

As coisas não iam muito bem para ele, isso é verdade.

Já com 28 anos, Baltazar havia tido apenas uma namorada, na vida inteira, com quem namorou por 12 anos, sem nunca ter conseguido mais que um papai-mamãe no escuro e o rompimento no dia seguinte, segundo a moça, por vergonha do que tinha feito.

Começou a trabalhar bem cedo, na empresa do tio, irmão de seu pai, um homem esperto para os negócios e cruel feito um capatáz.

Baltazar ouviu mais impropérios e xingamentos do tio do que qualquer palestino já tivesse ouvido de um judeu, ou vice-versa.

Mas ele não se incomodava em nada.

Para ele o tio nada mais era do que uma pessoa amarga, viciado em dinheiro e que vivia infeliz, preso a um casamento com uma mulher bem mais nova e que o traia com meia cidade.

Assim seguia a vida de Baltinha, aos berros do tio, vendo a mãe costurar e o pai beber, sem nada além disso, sem pódio de chegada e muito menos beijo de namorada.

Porém - nunca é tarde - eis que surgem, quase que ao mesmo tempo, duas pessoas, dois personagens em sua vida, que fariam com que o mundo de Baltazar virasse todo ao contrário. Uma delas, a bem da verdade, já existia. Mas não da maneira que irei contar.

A primeira delas, Lucinha.

De família recém chegada à cidade, Lucinha era filha de um empresário e de uma grã-fina da capital.

Uma vez aposentado, o pai de Lucinha decidiu morar no interior e investir no gado.

Assim, comprou uma fazenda, encheu-a de bois e vacas e trouxe toda a família, os três, na verdade, muito a contragosto de sua mulher, pessoa acostumada às festas e badalações da cidade grande.

Lucinha em nada se parecia com a mãe.

Moça de traços finos, pele clara e cabelos longos e de um olhar de felino e sorriso malicioso, Lucinha procurava por alguém. Alguém que, como ela, quisesse dar um basta na vidinha de merda e sair pelo mundo, sem rumo nem prumo.

Pausa em Lucinha, vamos à segunda pessoa. Roberval. O que dizer de Roberval?
Chefe imediato de Baltazar e primo deste. Sobrinho preferido do tio carrasco, tinha direito a todas as regalias do mundo. Ganhava bem, mesmo fazendo pouco, ao contrário de Baltinha, que trabalhava feito camelo e nunca havia ouvido sequer um obrigado.

Não era raro ver Baltinha fazendo o trabalho de Roberval, enquanto este saia com o tio para “procurar novos investimentos”, o que não raro signigicava gastar uma boa grana no puteiro local.

Apesar disso, Roberval não tinha muito apreço por Baltazar. Não, pelo contrário. Sempre que podia, Roberval fazia de tudo para humilhar Baltazar. Chamava-o de incompetente, de pobre, de feio, de infeliz, citando aqui apenas o que deve, por educação, ser escrito.

De Roberval sim, Baltazar tinha raiva sobrando. Mas não demonstrava, nada. Pensava Baltazar que revelar seu sentimento de ódio pelo primo seria como abrir mão do único trunfo que tinha contra ele. E assim, Baltazar só esperava, com toda a fé que tinha em si mesmo, que um dia, sem dizer uma palavra, faria com que Roberval se sentisse o pior dos homens. E mal sabia ele, este dia estava muito próximo.

(continua...)

Um comentário:

Anônimo disse...

E ai? Já terminou a segunda parte ? Estamos no aguardo!

Abs
MFM